terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os amores insuperáveis

Levantei de vez da cama. Tinha quinze minutos para escovar os dentes, desamassar a cara, trocar de roupa e tomar café. Não necessariamente nessa ordem, é claro. Eu podia muito bem começar pelo café.


Corri para a cozinha, arrancando a torradeira do armário e entupindo o liquidificador de leite, banana e Nescau. Foi literalmente uma fast food. Tudo estava pronto em menos de dois minutos. E engolido em menos de um.

A calça jeans estava esticada na cama, junto a blusa da Hello kitty e o bolero rosa. Em uma manobra confusa e desastrada, coloquei tudo, finalizando com uma sandália rasteira e um brilho nos lábios.

A porta estava destrancada, o que me facilitou. Tranquei e guardei a chave na bolsa em um único movimento. Estava me tornando expert em não me atrasar.

- Aonde vai com tanta pressa? – perguntou Felipe, meu vizinho de porta.

- Vender sorvete no Havaí. – respondi impaciente. Ele arqueou uma sobrancelha – Não te interessa Felipe!

- Sempre tão grossa. – reclamou – Mas não esquenta, você fica linda quando ta brava.

- Cala a boca!

Felipe correu na minha frente e encontrou com os amigos babacas dele no playground, onde a irmã dele subia e descia no escorregador. Sorri e acenei para ele, mostrando a língua logo em seguida.

Saí pelo portão ao som das risadas debochadas dos outros garotos. Adoro deixar ele envergonhado...

As ruas estavam cheias. Morar em bairro movimentado é um caos quando se quer dormir, mas é o máximo quando se está de cabeça quente. Sempre tem algum palhaço para te distrair. E, a bola da vez, foi um garotinho que vinha puxando a saia da mãe, enquanto berrava:

- Telo solvete! Telo sagado! Telo! Telo Telo!

Ele quase deixou a mãe pelada. Coitada daquela mulher morena de blusa de linho. Tinha um peste e tanto para educar. Sorte para ela.

Mas bastou que ela passasse para que o nervoso voltasse a perturbar meu estômago. Quer dizer, se a mãe de Eduardo disse aquilo, é porque eu o tinha magoado. E mais, ele estava com a voz magoada. O que eu tinha feito?

Encontrei-o sentado sozinho em uma mesa do Federico, brincando com um guardanapo.

- Oi Dudu.

- Ah, oi Dany! – sorriu – Queria falar comigo?

- Sim, que queria. É que, bem... – engoli em seco – Tem uma razão para eu ter ficado distante. E eu acho que devo te contar qual é.

- Conte, então...

- Carlos. – falei, com a garganta apertada. – A gente. Nós voltamos.

- Ah. – murmurou.

- Então, ta tudo bem para você?

- Se não estiver, vai terminar com ele?

- Não. – disse – Mas, é importante para mim que você esteja bem.

- Não, não ta tudo bem. Mas vai ficar, relaxa.

- Que bom, Edu... – suspirei, aliviada – Eu te amo.

- Eu sei. – sorriu – Então, que tal a gente tomar uma casquinha?

- Seria ótimo.

Eu e Eduardo ficamos conversando até as quatro da tarde. Talvez ser amiga dele fosse melhor do que ser sua namorada.

Quando cheguei a casa, mamãe estava no sofá, conversando com... Felipe? Como assim?

- Oi mãe. – cumprimentei-a – Oi verme.

- Oi larvinha... – ele respondeu malicioso. – Obrigado senhora Ana, foi ótimo conversar com a senhora.

- Qual nada, Felipe. – mamãe respondeu, rindo. Que é? Era um complô?

- Ei, espera aí Dany. Eu vim falar com você.

Felipe me seguiu pela cozinha e sala, sossegando por fim quando chegamos ao meu quarto. Sentei na cama, procurando meu celular dentro da bolsa.

Procurei Carlos na lista de contatos e mandei uma mensagem, avisando que Eduardo já estava avisado. A resposta demorou menos de dois minutos. E foi a melhor de todas: “Eu te amo s2”

Quando meus dedos já estavam esgotados de tanto mandar coraçõezinhos de resposta, levantei o olhar e fitei Felipe, que olhava meu pôster do Edward, intrigado, provavelmente se perguntando a mesma coisa que Eduardo e Carlos me perguntaram: “O que esse vampiro faz no seu quarto?”

- Posso falar agora?

- Claro.

- Por que fez aquilo comigo mais cedo do playground?

- Ah, você não sabe o quanto fica bonitinho corado. – debochei, piscando e mandando beijinhos.

- Eu falei sério quando disse que você fica gata brava. – seu olhar estava fixo em meu rosto, seus lábios apertados em uma linha preocupada. – Eu vou te beijar agora.

Suas mãos grudaram e minhas têmporas e seus lábios nos meus. Sem perceber, comecei a beijá-lo, a passar os dedos por seus cabelos encaracolados e por suas costas.

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